jazz, 2016
Eu sei que te amo quando paro pra te olhar e vejo que teu corpo lá parado é o único peso no universo, e que por mais que diga coisas idiotas e sem sentido, meu olhar continua em você, e observo teus ossos, teus medos (nesse momento de me perder numa piada sem graça), tua boca que abre e fecha e sorri e me ganha e me ama, tua boca que não me parece segura do que diz, mas tem plena certeza do que faz comigo, e teus olhos que olha pra mais alguém e volta me procurando pra ter certeza de que ta fazendo a coisa certa e de que ta me prendendo com aquilo, teus cotovelos pontudos e desajeitados que se organizam quase que numa dança pra fazer daquilo o circo perfeito, sinto dizer que tuas palavras eu jogaria fora, mas que o show eu compraria em Blu-ray.
Eu sei que te amo quando nossos corpos se embaraçam, nossos halitos se misturam, nossos ritmos respiratório e cardíaco se confundem e nossos olhares não precisam se cruzar pra termos a certeza um do outro. Quando, apesar das coisas se acumulando para serem pensadas e organizadas a tempo de não desmoronarem em cima de mim, prefiro usar minha utilidade pra ligar só mais uma vez cada pontinho castanho escuro do teu corpo, que eu gosto de pensar ser uma imensa galaxia nesse momento. Quando eu sei que tenho que ir e te deixar meu cheiro, meu estado de sinônimo, e ir.
Eu sei que te amo quando tu pede preu ficar.
Eu sei que te amo quando me faz ser o contrario de tudo que seria, quando me faz dizer exatamente o contrario de tudo que quero dizer, e tudo bem. Quando toco tua tatuagem, pra ter certeza da tua existência, pra saber que não te criei, que não imaginei um corpo magro, desajeitado, sem jeito algum pra essa vida, com a voz e as mãos quase sempre tremulas, quase sempre segurando um cigarro, quase sempre com os olhos baixos demais que denunciam que não se acostumou a dormir. Quando, apesar do angulo incomum dos teus joelhos, que te fazem caminhar em tesoura e curvando os ombros pra frente compensando o desvio dos teus quadris bastante anteriorizados, eu prefiro te ver vindo, te ter vindo, porque ai tu chega e eu me viro bem sendo tua fã.
Eu sei que te amo, apesar de dizer “não sei o que sinto”, apesar de fazer confusão e tentar te manter longe, apesar de mentir pra mim mesma que vou conhecer alguém que “se encaixe” na minha porta. Apesar do meu amor desapegado, apesar de todo mundo achar que isso não é o bastante, e de eu concordar com isso. Apesar de não te manter no abraço - nosso lugar favorito no mundo- pra que acredite que não te amo. Apesar de sair sem olhar pra trás, e voltar sem expectativas. Apesar de fazer pouco caso de tudo que tu diz, de tudo que tu faz, de tudo que tu é, pra ter a certeza da tua incerteza, pra te fazer desistir. Apesar de tu sempre ta aqui, de sempre me perdoar e sempre me esperar na esquina molhada da chuva, voltar desesperada pra dizer que a porta ta fechada, mas a janela ta sempre aberta, pra sermos por mais um dia e nunca mais.